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Em favor da caridade.

É preciso aprofundar as discussões em torno do equilíbrio entre ser sustentável e filantropia

por Dom Orani João Tempesta

No Brasil, o empreendimento da Igreja Católica no setor de saúde pública sempre foi mais vigoroso se comparado aos investimentos feitos pelos governos, com inúmeras atividades e contribuições no campo da caridade. Atualmente, a situação delicada dos hospitais filantrópicos interfere e torna ainda mais frágil o quadro. Esta relação está no fato de as santas casas e hospitais católicos responderem, nos últimos anos, por um terço do atendimento à nossa população desfavorecida e desprovida de planos de saúde.

Este mês, as entidades de saúde ligadas à Igreja vão estar reunidas no I Congresso Brasileiro de Instituições Católicas, que será realizado na Arquidiocese do Rio de Janeiro. O encontro é muito importante, especialmente pela necessidade destas instituições de se unirem, buscando o fortalecimento que lhes vai possibilitar continuar a missão valiosa de ajuda aos mais carentes. O congresso representa também uma oportunidade de aprofundar as discussões em torno do equilíbrio entre sustentabilidade e filantropia.

Precisamos nos envolver cada vez mais com a valorização dos hospitais católicos, compreendendo a identidade destas instituições. A sua verdadeira identidade não consiste apenas em serem estruturas onde se cuida dos enfermos, mas são ambientes nos quais o sofrimento, a dor e a morte são reconhecidos e interpretados no seu significado humano e, especificamente, cristão. Por isso, é fundamental a permanência de tais unidades de saúde com o seu papel caritativo aos nossos irmãos, que contam, às vezes, somente com esta rede de solidariedade, que é a presença de Deus aonde não chega a ação do Estado.

Do congresso vai surgir a Associação Brasileira de Instituições Católicas de Saúde (Abics). Este investimento pode ser um caminho seguro na concretização da palavra do Papa Francisco: “É preciso preservar os hospitais católicos do risco de uma mentalidade empresarial, que em todo o mundo quer colocar o tratamento da saúde no contexto do mercado, acabando por descartar os pobres”. Manter a rede de assistência à saúde e à caridade é uma difícil tarefa para os gestores destes hospitais e casas de saúde. Estes enfrentam agora o desafio de encontrar o equilíbrio no exercício da caridade, especialmente frente aos grandes conglomerados que atuam no setor.

É um processo muito complexo das entidades católicas de saúde, que personificam o longo histórico de mais de dois mil anos da Igreja na assistência aos doentes, com a meta de equacionar as suas finanças sem abrir mão da filantropia, em meio a um cenário desfavorável e tão competitivo. A partir da união que será firmada com a Abics, um novo horizonte deve se abrir para manter a caridade e a solidariedade nesta missão que a Igreja Católica realiza de forma milenar no Brasil.

Dom Orani João Tempesta é arcebispo do Rio de Janeiro